Eu diria que a culpa é sua. Talvez eu acredite veementemente nisso e talvez realmente seja verdade. É esse seu jeito de ficar chateado com a vida por alguma razão sem razão; essa voz meio rouca e o jeito como você a usa quando chama pelo meu nome. Eu diria até que é o som da sua voz reclamando de algo, ou mesmo pararia no "som da sua voz"; é o som da sua voz e pronto. Faz cócegas nos ouvidos e me arrepia o corpo. É quase a mesma sensação de quando eu sinto a sua respiração na minha nuca. Essa última é um pouco mais intensa, confesso. É também sobre o seu silêncio, sobre os seus lábios fechados e seus olhos falando por eles. É o silêncio mais estridente que eu já ouvi. É silêncio que grita. Essas são só algumas coisas nas quais eu reparei, talvez ninguém tenha visto. Mas também existem as coisas escancaradas em você: o seu jeito de parecer errado e fazer com que a gente entre num paradoxo dentro da cabeça e tente encontrar a linha tênue entre errado e certo. Entre o que você é e o que aparenta ser. Sobre o seu carro em alta velocidade e a minha sensação de segurança em estar ali. Sobre sentir tanto frio ali dentro e sentir o coração e o estômago queimarem de dentro pra fora. É o seu jeito de entrar na nossa vida pelas rachaduras nas paredes. Aí quando a gente se dá conta, nem parede tem mais; tem só um tapete no chão, água com gás de um lado e o violão do outro. Eu não sei se é proposital, mas a culpa é sua. A culpa é sua por deixar o coração da gente todo dilacerado quando a realidade volta. De ser a pessoa mais presente enquanto deveria ser a mais distante. Por fazer com que eu deseje sempre um minutinho a mais ou um pedacinho a mais de você. De me deixar com o coração apertado enquanto eu não recebo um "cheguei em casa". Ou quando eu não tenho bateria para avisar que eu estou em casa. Ou apertado de vontade de chegar em casa com você. De ver você virar as costas e já querer você de frente de novo. De me fazer escrever um texto altamente genérico e terminar me entregando e me despindo de todas as máscaras. Agora eu nem sei mais se a culpa é sua ou minha. Talvez seja minha por perceber tudo isso só agora, depois de ter me afogado nisso tudo. Eu tinha me colocado numa redoma de vidro e você veio e tirou; tirou e eu nem percebi o vento batendo ou a chuva chegando. E aí você me faz escrever um texto embaixo da chuva, com o vento nos cabelos e ciscos nos olhos. Um texto cheio de aliterações. (deixando claro, eu odeio aliterações). Os meus dedos só continuam a digitar, sem nem se preocupar com estética ou coisa do tipo. Necessidade, eu diria. Extravasar você de mim. O pior disso tudo é que eu nem sei como terminar essa tentativa falida de extravasamento ou contenção.
(texto escrito em algum dia, n'alguma madrugada qualquer, pensando em amores inventados e postando-os só depois)
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