segunda-feira, 17 de junho de 2019

Ême

M
Soa tão veloz como cê passou pela minha vida
Tipo vento, bagunçando tudo, tirando tudo
Do l u g
             a
               r
Foi caos comigo
E fomos nós
Entrelaçados
Numa bagunça só
Depois foi você, só
Que foi embora
Restando a brisa
Seu cheiro no lençol
E a minha voz sussurrando
"êmê"
Cê bateu suas asas e voou
Mas quando eu sussurro
"ême"
Cê volta
E somos nós, numa bagunça só

sábado, 6 de janeiro de 2018

Larissa

              Durante a noite de uma sexta-feira qualquer, perguntava-me se Larissa realmente estava dormindo. Digo, ela disse que estaria...será que está? Ou será que me mentes como da última vez? Pego um jeans que encontrava-se sob o cesto de roupas e visto em conjunto com aquela camisa surrada de sempre. Vou dar uma volta, espairecer. Espairecer: desviar(-se) de preocupações, repousando a mente por meio de recreação ou entretenimento; distrair(-se), flautear. 
                Afinal, eu estava me enganando de novo? aquela volta no quarteirão só me fizera pensar em sandices cada vez mais obscuras. Distrair-se? Minha cabeça está em uma casa branca dos portões acinzentados e no que há dentro deles (ou não há). É ali que eu me distraio, confabulando comigo mesmo sobre inúmeras ideias e ocasiões forjadas a fim de nada esperar. 
            Dizem que dessa forma, evitamos decepções. Confiança, Larissa, nessa caminhada eu descobri que quem andava de mãos dadas comigo era nada mais que sua sombra. Uma sombra fugaz, esboçada como confiança. Mas não era, Larissa. Para onde você a levou? Está ao seu lado, debochando daquilo que sou, tolo por crer em suas palavras vazias e sem significado, enquanto em meio a mais mentiras você se diverte, distribuindo seus sorrisos e esvoaçando o cabelo, tão longe de mim? Vou busca-la, Larissa. Não você, você pode ficar. Vou buscar a confiança em ti, que tanto  procuro, tanto preciso.

domingo, 6 de agosto de 2017

Sobre a efemeridade da vida

É engraçado como a vida prega peças nela mesma com um "quê" de efemeridade pós-moderna. Num certo dia, a gente está na cama curtindo um som e no outro, perde a pessoa mais especial que já existiu. Esse tempo demora um pouco mais até passar, mas passa. Passa simultaneamente a outros, enquanto perde seus milésimos de segundos. Nesse outro tempo, damos um passo de cada vez até chegar no objetivo esperado. E aí? Aí você está jogando um jogo qualquer dessas centenas espalhadas pela internet e depois já está planejando lugar para morar e calculando o preço da passagem do ônibus. Aí, depois de uns meses a gente já se vê calculando quanto gastaria com a gasolina e almoços fora de casa. O tempo tico e taca mais um pouco e você muda de casa, muda seu círculo de relações. Há o tempo em que não resta relação alguma, senão a consigo própria. Essa é a que você menos quer. É inevitável e você começa a reviver todo o tempo já vivido, retoricamente. Há tempos em que a saudade bate e há dias em que a rotina  parece se repetir: termina sempre com o travesseiro encharcado e os olhos grudados pela manhã. Então, a gente empurra o tempo com a barriga, o arrasta com os pés ou com aquilo que gastar menos energia. São 20 anos vivendo e revivendo "tempos"; revivendo giros de relógios, passagens de estações, encerramentos de etapas que se iniciam sempre de forma diferente e terminam como se estivéssemos parados durante 365 dias, vivendo em frente a um espelho. É bem quando você se entrega ao conformismo de Bauman e decide se jogar na liquidez das relações sociais e imergir, chega o tempo em que alguém aparece na sua vida e vai se inserindo sutilmente...começa com um lanche compartilhado depois de um dia cansativo na faculdade e no final da semana, atravessando a cidade seguindo o seu carro pelo simples fato de você estar com medo de chegar em casa sozinha. Depois, estudo compartilhado na biblioteca. Esse tempo passa e a gente nem vê. Quando se dá conta, já está andando dentro de uma loja pedindo ajuda com os móveis da -até então- sua casa. Isso tudo seguido da companhia enquanto os eletrodomésticos são instalados...e da companhia pra dormir, assistir à alguma série ou filme até cochilar. Companhia pra almoçar, jantar, estudar, viajar, chorar, gargalhar e fazer nada. Só companhia. Esse tempo passa tão rápido que a gente nem se dá conta. O tic-tac do relógio se sobrepõe. Aí você volta uns 10.000 quilômetros atrás e passa alguns meses por lá. Esse tempo demora. A saudade bate e você revive aquele tempo veloz novamente através de horas no telefone antes de dormir, durante o almoço. Viagens, idas e vindas, discussões, saudade, abraços, carinhos...tudo voa. Disso tudo, 365 é um número aleatório que representa tanta coisa, tantas memórias. Os dias seguem e nos atropelam enquanto a gente come, toma banho e tenta se virar..o ponto em questão é que é gostoso se virar na companhia de alguém. Um desses "alguéns" aleatórios com o qual você nunca pensou ter uma relação sólida algum dia e que terminou por tomar conta de todas as voltas do seu relógio, que já não importam tanto assim. Quanto a isso -com o perdão da palavra- que se dane o pós-moderno. Quero mais 365 dias ao seu lado, seja turbulência ou calmaria. Eu quero solidez, quero você e quero "nós". Eu quero a permanência. 

domingo, 21 de maio de 2017

Infinito Particular

No meu interior, corrói
A versão incapaz de mim
Portando lápis e papel
Enquanto a vida se destrói

Eu, incapaz, brindo
À profunda negação
Do show de horrores
No qual sou mais uma assombração

Copo e relógio na mão
Esperando o sino tocar
Indicando o fim
Do meu show particular

"Detive"

Tudo o que sei
O que aprendi
Sabedorias que apreendi
Lembranças que vivi

Vieram de ti
Seja bom ou seja ruim
Vieram de ti
Trancafiei-os por ti

E a mim, que mais cabia?
Diminuto ser
Que sou
Que mais cabia?

Momentos
Palavras
Lembranças

“Deti-ve”

-C.B

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Penso, logo grito.

Eu grito calado. Um grito que ecoa no oco do meu ínfimo interior. Ela não escuta; não estamos assim, conectados. Não como nos livros e filmes. Afinal, nada é igual àquele universo. Os dias não são como nos livros e filmes. Aqui, me chamam para uma partida de futebol e eu vou. Depois, dizem que devo estudar e eu vou. Depois, dormir...e eu vou. Todos os dias, a mesma rotina, que vira poesia banal em mais uma folha de papel, suja de café. Mandaram-me levantar e eu levantei. Levantei, apenas. Sem pensar nos movimentos ou no que faria depois. Estava automaticamente acostumado a receber ordens que eu nem sabia de onde vinham. Automaticamente, é essa a palavra. Ela define as ações de todos os dias. Nem todas, confesso. Naquelas horas em que não sigo no “automático”, eu grito. Grito calado. Um grito que ecoa no oco do meu ínfimo interior. Depois, volto a receber ordens. Ordens que dizem para eu me levantar, colocar os chinelos, ir escovar os dentes e ir direto para o chuveiro. Lá, onde tudo se cala – sem voz, sem grito- eu penso. E mandam-me desligar o registro e ir vestir-me. E é então que me dou conta de que a voz não vem de cima ou dos lados, muito menos de fora. Ela vem de dentro, do oco. Para evitar que eu me ensurdeça com o grito calado. Um grito que ecoa no oco do meu ínfimo interior.

Sorrateira

E ao abrir a porta, me deparo com aquele sorriso torto, e demasiada base, numa tentativa errônea de disfarçar aquelas olheiras gritantes. Ela entra, toma conta do café, do almoço, da cozinha e do violão. Maldito violão. Insistia em tocar algo que não sabia, coisas que não sabia. Era o tipo de menina que chega deixando a escova de dentes e quando você se dá conta, se enxerga do lado de fora da janela de vidro da farmácia enquanto compra outra escova pois a dela está velha. Ah, mas ela discordava. "Eu não acho que esteja velha", dizia. Insistia em achar. Achou-me.