domingo, 6 de agosto de 2017

Sobre a efemeridade da vida

É engraçado como a vida prega peças nela mesma com um "quê" de efemeridade pós-moderna. Num certo dia, a gente está na cama curtindo um som e no outro, perde a pessoa mais especial que já existiu. Esse tempo demora um pouco mais até passar, mas passa. Passa simultaneamente a outros, enquanto perde seus milésimos de segundos. Nesse outro tempo, damos um passo de cada vez até chegar no objetivo esperado. E aí? Aí você está jogando um jogo qualquer dessas centenas espalhadas pela internet e depois já está planejando lugar para morar e calculando o preço da passagem do ônibus. Aí, depois de uns meses a gente já se vê calculando quanto gastaria com a gasolina e almoços fora de casa. O tempo tico e taca mais um pouco e você muda de casa, muda seu círculo de relações. Há o tempo em que não resta relação alguma, senão a consigo própria. Essa é a que você menos quer. É inevitável e você começa a reviver todo o tempo já vivido, retoricamente. Há tempos em que a saudade bate e há dias em que a rotina  parece se repetir: termina sempre com o travesseiro encharcado e os olhos grudados pela manhã. Então, a gente empurra o tempo com a barriga, o arrasta com os pés ou com aquilo que gastar menos energia. São 20 anos vivendo e revivendo "tempos"; revivendo giros de relógios, passagens de estações, encerramentos de etapas que se iniciam sempre de forma diferente e terminam como se estivéssemos parados durante 365 dias, vivendo em frente a um espelho. É bem quando você se entrega ao conformismo de Bauman e decide se jogar na liquidez das relações sociais e imergir, chega o tempo em que alguém aparece na sua vida e vai se inserindo sutilmente...começa com um lanche compartilhado depois de um dia cansativo na faculdade e no final da semana, atravessando a cidade seguindo o seu carro pelo simples fato de você estar com medo de chegar em casa sozinha. Depois, estudo compartilhado na biblioteca. Esse tempo passa e a gente nem vê. Quando se dá conta, já está andando dentro de uma loja pedindo ajuda com os móveis da -até então- sua casa. Isso tudo seguido da companhia enquanto os eletrodomésticos são instalados...e da companhia pra dormir, assistir à alguma série ou filme até cochilar. Companhia pra almoçar, jantar, estudar, viajar, chorar, gargalhar e fazer nada. Só companhia. Esse tempo passa tão rápido que a gente nem se dá conta. O tic-tac do relógio se sobrepõe. Aí você volta uns 10.000 quilômetros atrás e passa alguns meses por lá. Esse tempo demora. A saudade bate e você revive aquele tempo veloz novamente através de horas no telefone antes de dormir, durante o almoço. Viagens, idas e vindas, discussões, saudade, abraços, carinhos...tudo voa. Disso tudo, 365 é um número aleatório que representa tanta coisa, tantas memórias. Os dias seguem e nos atropelam enquanto a gente come, toma banho e tenta se virar..o ponto em questão é que é gostoso se virar na companhia de alguém. Um desses "alguéns" aleatórios com o qual você nunca pensou ter uma relação sólida algum dia e que terminou por tomar conta de todas as voltas do seu relógio, que já não importam tanto assim. Quanto a isso -com o perdão da palavra- que se dane o pós-moderno. Quero mais 365 dias ao seu lado, seja turbulência ou calmaria. Eu quero solidez, quero você e quero "nós". Eu quero a permanência.