Eu nunca fui muito boa em lidar com a morte. Quer
dizer...comecei a ter que lidar depois de velha. Eu já não acreditava em céu e
inferno ou que todos iriam para um lugar bom. Que iríamos para um lugar melhor
e ninguém poderia me convencer do contrário. Eu chorei, sim. Não sei dizer bem
a razão, mas ficava noites e noites dormindo com os lençóis molhados. Poderia
ser a dor da saudade, não sei. Sei que se manifesta como uma dor no peito, nó
na garganta, sentimento de insignificância, incapacidade. Eu, tão grande, tão
madura, tão “a frente do meu tempo”, ela dizia, não fui tão madura ou inteligente
para lidar com a bagunça aqui dentro. Não a bagunça de casa, essa eu sempre dou
um jeito. Também dou um jeito na bagunça das minhas vísceras, mas essa volta. É
como se o meu sangue apenas a levasse para outro tecido, um mais distante e
quando ele bem entende, traz de volta. Quisera eu poder controlar. Mal consigo
encarar aquelas que me criaram; sinto vergonha da podridão que se instala
dentro de mim. Necrose. É mais fácil evitar pensar enquanto você fede. A gente
tenta driblar...toma banho, escova os dentes, passa perfume, mas nada tira o
odor. Só eu o sinto. O inferno é aqui dentro e o céu, eu ainda não descobri. Essa
doença, não há médico que cure: não há como curar um mundo paralelo, que vive
dentro de você. Os dois vivem em mim, no frio que sinto, de dentro para fora. Para
os que partem do plano real e passam a viver apenas dentro do meu particular,
entrego um agasalho, o melhor dos perfumes e um cartão de boas vindas.
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