sexta-feira, 14 de abril de 2017

Penso, logo grito.

Eu grito calado. Um grito que ecoa no oco do meu ínfimo interior. Ela não escuta; não estamos assim, conectados. Não como nos livros e filmes. Afinal, nada é igual àquele universo. Os dias não são como nos livros e filmes. Aqui, me chamam para uma partida de futebol e eu vou. Depois, dizem que devo estudar e eu vou. Depois, dormir...e eu vou. Todos os dias, a mesma rotina, que vira poesia banal em mais uma folha de papel, suja de café. Mandaram-me levantar e eu levantei. Levantei, apenas. Sem pensar nos movimentos ou no que faria depois. Estava automaticamente acostumado a receber ordens que eu nem sabia de onde vinham. Automaticamente, é essa a palavra. Ela define as ações de todos os dias. Nem todas, confesso. Naquelas horas em que não sigo no “automático”, eu grito. Grito calado. Um grito que ecoa no oco do meu ínfimo interior. Depois, volto a receber ordens. Ordens que dizem para eu me levantar, colocar os chinelos, ir escovar os dentes e ir direto para o chuveiro. Lá, onde tudo se cala – sem voz, sem grito- eu penso. E mandam-me desligar o registro e ir vestir-me. E é então que me dou conta de que a voz não vem de cima ou dos lados, muito menos de fora. Ela vem de dentro, do oco. Para evitar que eu me ensurdeça com o grito calado. Um grito que ecoa no oco do meu ínfimo interior.

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