Lembro-me da vez em que ela dirigia, sem freio, sem pudor. E dirigia como uma vadia, com o cigarro na mão, garrafa de bebida do lado e cabelos ao vento, cabelos esses que como a droga mais entorpecente, me levavam a loucura por meio de um caminho retilíneo, sem uma bifurcação sequer. Rindo à toa, rindo do nada, rindo de tudo.
No som do carro, um "rockzinho" desses que nascem em um dia e morrem no outro, era isso que ela ouvia além de, claro, meus sussurros implorando por um toque, por um olhar, por um pedaço que fosse daquela vagabunda promíscua que só sabia jogar. A vida era um jogo, onde ela ditava as regras com sua voz adocicada, voz de sereia, eu diria. A mais bela sereia, que me envolvia em seu canto tanto ensurdecedor quanto sedutor, me fazendo acreditar que fui o único, o homem de sua vida.
Sussurrava palavras ao meu ouvido que nunca imaginara ouvir, sempre misteriosa, pederasta maldita. Arrastou meu corpo duro e gélido até a zona abissal do mais profundo dos oceanos e me deixou, como um nada, como os outros. Outros meliantes que não valem a roupa que veste, que assim como eu se deixaram levar por uma insolente alma jovial, que só almeja jogar [...] E quando ela volta, com um sorriso no rosto, estou ali para recebê-la, como seu cachorro, disputando atenção, participando desse jogo, deixando que ela dite as regras daquilo que comanda. E num brinde, eu e os outros sete, com olhos esbugalhados e corpos mórbidos, aguardando sua volta, gritamos: à vida!
Bouvié
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